

Entrevista exclusiva concedida à Rede Portais Brasil durante o Festival Internacional de Turismo das Cataratas (FIT Cataratas), em Foz do Iguaçu.
O turismo paranaense vive um dos seus melhores momentos, mas o Brasil ainda enfrenta desafios estruturais que limitam seu potencial como destino internacional. Essa é uma das avaliações do presidente da ABAV Paraná, Geraldo Zaidan Rocha, entrevistado pela Rede Portais Brasil durante o Festival Internacional de Turismo das Cataratas (FIT Cataratas), em Foz do Iguaçu.
Com mais de 25 anos de atuação no setor e passagem pela presidência nacional da Associação Brasileira de Agências de Viagens (ABAV), Geraldo não fugiu de temas polêmicos. Na conversa, ele afirmou que o Paraná tem crescido acima da média nacional no turismo, destacou o avanço do turismo religioso e o fortalecimento do litoral paranaense, mas também fez duras críticas à infraestrutura turística brasileira e à insegurança pública, que considera um dos principais obstáculos para a atração de visitantes estrangeiros.
O dirigente também abordou as transformações provocadas pela tecnologia, defendeu o papel das agências de viagens em um mercado cada vez mais digital e revelou por que muitos consumidores voltaram a buscar atendimento presencial após experiências frustrantes com plataformas online. Sobre a inteligência artificial, foi direto: considera a ferramenta uma aliada importante, mas alerta que ela ainda está longe de substituir a experiência e o conhecimento humano.
Ao longo da entrevista, Geraldo ainda fala sobre o futuro do turismo brasileiro, as tendências que devem movimentar o mercado nos próximos anos, a importância dos eventos de negócios para o setor e compartilha uma reflexão que resume sua trajetória: “Eu nunca tive uma padaria, mas passei a vida vendendo sonhos”.
Confira a entrevista completa.
Para começar, conte um pouco sobre sua trajetória no turismo e sua atuação na ABAV.
Geraldo Zaidan Rocha: Entrei na ABAV Paraná em 1999, justamente quando Curitiba sediou o Congresso Nacional da ABAV. Estou na entidade desde então. Tive a oportunidade de presidir a ABAV Nacional entre 2018 e 2019 e, no final de 2025, assumi a presidência da ABAV Paraná. É uma trajetória de mais de duas décadas acompanhando a evolução do turismo brasileiro e trabalhando pelo fortalecimento do setor.
O senhor presidiu a ABAV Nacional e hoje lidera a ABAV Paraná em um momento de profundas transformações. Como avalia a evolução do turismo brasileiro ao longo dessa trajetória?
Geraldo Zaidan Rocha: A principal evolução que sentimos foi a tecnológica. A tecnologia veio para ajudar, facilitar a vida do passageiro e também do agente de viagens. Hoje temos ferramentas que agilizam processos e aproximam pessoas.
Por outro lado, nossa batalha diária neste país continua sendo as políticas econômicas. Muitas vezes elas acabam dificultando a vida do empreendedor e do empresário. As margens de lucro ficam cada vez menores, os custos aumentam e sobra menos recurso para investir. Esse é um desafio constante para quem gera emprego e movimenta a economia.
As plataformas online de reservas e vendas mudaram a relação entre consumidores e agentes de viagens. Como as agências podem se diferenciar nesse cenário?
Geraldo Zaidan Rocha: Muitas pessoas aderiram à tecnologia para comprar passagens, hospedagens e pacotes pela internet. Só que, em muitos casos, chegavam ao aeroporto, ao hotel ou ao navio e descobriam que a reserva estava errada, não constava no sistema ou aparecia como não paga.
Isso gerou insegurança e fez com que muitos consumidores voltassem a procurar as agências físicas, principalmente após a pandemia. As pessoas valorizam poder conversar pessoalmente, tirar dúvidas e ter alguém responsável pelo atendimento.
A confiança continua sendo fundamental. Quando você compra uma viagem, está investindo em um sonho. E sonhos precisam de segurança.
A inteligência artificial está chegando com força ao turismo, oferecendo roteiros, pesquisas e recomendações personalizadas. Ela deve ser vista como concorrente ou aliada?
Geraldo Zaidan Rocha: Como aliada. Não vejo a inteligência artificial como concorrente.
Mas também acredito que não podemos confiar cegamente nela. Afinal, quem alimenta a inteligência artificial são as pessoas. Ela não nasce sabendo tudo nem pensa sozinha. Ela trabalha a partir das informações que recebe dos seres humanos.
E o ser humano falha. Portanto, a inteligência artificial é uma ferramenta importante, mas ainda depende muito da qualidade das informações fornecidas. O conhecimento humano continua sendo essencial.
Especialistas apontam que o turismo brasileiro vive um momento positivo. O senhor compartilha dessa visão? Quais são os principais desafios para manter esse crescimento?
Geraldo Zaidan Rocha: Sim. No Paraná, por exemplo, o turismo cresceu acima da média nacional. Tivemos uma evolução muito significativa nos últimos anos.
A infraestrutura do litoral melhorou bastante e os resultados apareceram. Tivemos a maior temporada da história do litoral paranaense. Além disso, o turismo religioso vem crescendo de forma impressionante em várias regiões do estado.
No entanto, esse crescimento também traz desafios importantes. A segurança pública é um dos principais deles. Existem destinos com grande potencial turístico que necessitam de políticas mais efetivas para garantir tranquilidade tanto aos moradores quanto aos visitantes.
Também é fundamental manter investimentos em infraestrutura, qualificação profissional, promoção dos destinos turísticos e integração entre o poder público e a iniciativa privada. O turismo tem um enorme potencial para gerar emprego, renda e desenvolvimento regional, mas seu crescimento sustentável depende de planejamento contínuo e ações estratégicas de longo prazo.
Na sua avaliação, o Brasil ainda não está preparado para receber o turista estrangeiro?
Geraldo Zaidan Rocha: Não da forma como poderia estar.
O Brasil foi reconhecido pela Organização Mundial do Turismo como um dos países mais privilegiados do mundo em belezas naturais. Como destino turístico, é um país extraordinário.
Mas, quando falamos de infraestrutura turística para receber visitantes internacionais, ainda estamos muito atrás de outros países. Temos alguns dos cenários mais bonitos do planeta, mas ainda enfrentamos dificuldades em áreas como mobilidade, serviços, sinalização e segurança.
Precisamos evoluir para transformar todo esse potencial em resultados ainda maiores.
Recentemente a ABAV promoveu mais uma edição da Expo Turismo Paraná, considerada um sucesso. Qual a importância de eventos como esse para o setor?
Geraldo Zaidan Rocha: É uma importância enorme.
Esses eventos aproximam agentes de viagens, operadores, destinos turísticos, hotéis e fornecedores. É uma oportunidade de relacionamento, capacitação e geração de negócios.
Nossa 30ª edição da Expo Turismo Paraná foi um grande sucesso. E já estamos trabalhando na próxima edição, que acontecerá nos dias 6 e 7 de maio do próximo ano.
Eventos como esse fortalecem toda a cadeia produtiva do turismo.
Desde a pandemia, o perfil dos viajantes mudou bastante. O que o senhor percebe de diferente no comportamento do consumidor atual?
Geraldo Zaidan Rocha: Houve uma mudança importante.
Muitas pessoas que utilizavam exclusivamente os meios digitais para planejar e comprar suas viagens sentiram-se desamparadas durante a pandemia. Em muitos casos, tiveram dificuldades para conseguir atendimento, remarcações ou reembolsos.
Quando precisaram de ajuda, procuraram as agências físicas.
Isso acabou fortalecendo novamente a relação de confiança entre os passageiros e os agentes de viagens. A pandemia trouxe de volta muitos clientes para dentro das agências.
Diante dessas transformações, como a ABAV tem trabalhado para apoiar os pequenos empresários e as agências de viagens?
Geraldo Zaidan Rocha: Através de cursos, treinamentos, palestras e capacitações permanentes.
A ABAV está sempre ao lado do agente de viagens, mostrando a importância do relacionamento humano e preparando os profissionais para as mudanças do mercado.
Quanto mais unidos estivermos, mais forte será o setor. Precisamos trabalhar juntos para defender nossos interesses e fortalecer as agências de viagens.
Olhando para os próximos cinco anos, quais tendências devem moldar o futuro das agências de viagens e do turismo brasileiro?
Geraldo Zaidan Rocha: Uma tendência muito forte é o crescimento do turismo religioso.
Também vemos um aumento da participação do público acima dos 60 anos no mercado de viagens. É uma faixa etária que está viajando mais e buscando experiências diferenciadas.
Ao mesmo tempo, o turismo continuará sendo um setor muito sensível aos acontecimentos globais. Basta uma guerra, uma crise econômica ou um problema sanitário para impactar diretamente o comportamento dos viajantes.
Depois da pandemia tivemos uma demanda reprimida muito forte e as pessoas voltaram a viajar intensamente.
Eu costumo dizer que gastar com viagem não é gasto. É investimento. É investimento em conhecimento, em experiências e em qualidade de vida.
Depois de tantos anos dedicados ao turismo, qual foi o momento mais marcante da sua trajetória e o que ainda o motiva a continuar defendendo o setor?
Geraldo Zaidan Rocha: Eu costumo brincar que nunca tive uma padaria, mas trabalho vendendo sonhos.
As pessoas gostam de sonhar e gostam de realizar esses sonhos por meio das viagens.
Tive a oportunidade de conhecer 74 países ao longo da minha vida. Ninguém tira essas experiências de mim. O que vivemos durante uma viagem fica para sempre.
O que me motiva é justamente isso: ajudar outras pessoas a realizarem seus sonhos. Ver a felicidade de alguém embarcando para uma viagem, conhecendo um novo destino ou vivendo uma experiência especial não tem preço.
Meu sonho continua sendo viajar e levar cada vez mais pessoas comigo nessa jornada.